mariana dias coutinho

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"Quarto Crescente”


Este quarto. Lugar de intimidade e liberdade de movimentos subitamente subjugado a forças de
mudança que vêm do exterior.
Está condenado a desaparecer e resta-lhe atravessar uma condição de suspensão, uma
temporalidade contingente que acelera em direcção a uma morte anunciada.
É este espaço, que não pode voltar a ser o que ainda é, que estas obras, colectivamente,
ocupam, testam limites e se constituem como testemunhas numa queda que, simultaneamente,
espelham e problematizam.
Pode um grito de revolta, dirigido ao contexto que o desencadeia, expandir percepções e
promover reflexão?
É de uma luta pela sobrevivência que se trata e a estratégia, neste caso, é espernear até ao fim.

Daniel Alfacinha, António Guimarães Ferreira e Mariana Dias Coutinho, 2019


"A Emancipação do Quarto Crescente"


Como é que agimos perante o fenómeno da transformação?
Será que este acontecimento capaz de ser anunciado, imposto, planeado e projectado, poderá também se expandir e autonomizar subitamente?

O medo, a ansiedade, o devir da acção, a reação, o espernear, o manter a cabeça à tona. O contagiar. A preservação. 
Vítimas da aceleração, torna-se urgente qualificar e escolher o que se quer concretizar e salvaguardar, o que se quer que permaneça, o que se quer vigiar.

O fechar de um quarto. O isolamento. O excluir da realidade presente. O suspender das condições actuais. 
Acções que se influenciam, modos que se permeiam e aglutinam, discursos que se completam ou se esclarecem. Estetiza-se o espaço, esteriliza-se a realidade, suspende-se o tempo, e estimulam-se novas formulações.

Sempre foi nosso desejo que o quarto se selasse, se enclausurasse, se mantivesse num estado de suspensão. 
Pintámos as paredes, pintámos a janela, pintámos as tomadas e os cabos, pintámos as bandeiras das janelas superiores, pintámos a porta e a maçaneta. 
Revestimos e isolámos o espaço com camadas de tinta, homogéneas e planas, impermeabilizámo-lo com uma membrana física e conceptual, aquele lugar que para nós era e será para sempre íntimo.

Um espaço, um quarto, crescente, que ultrapassou todas as nossas intenções, se afirmou e por fim nos tentou abraçar e proteger com toda a sua essência e potencialidade.

A primeira coisa que se sente quando se entra é a mudança de pressão. Aquele tapar dos ouvidos que nos obriga a engolir em seco.
Há uma sequência e desvio do olhar, que se inquieta e vagueia de um objecto para o outro, tentando fazer ligações, tentando absorver o espaço, tentando perceber o vazio que de repente abre o leque de possibilidades e por onde podemos circular. 
Sentimo-nos envolvidos e afectados por aquela atmosfera. Uma harmonia sufocante quase ameaçadora, onde se expõe implacavelmente a intimidade, a privacidade, mas também a sua violação e a sua vigilância (“Don’t you fuckin dare show anyone” e “Indoor eye”).

A segunda coisa que se sente é a presença e importância da luz que tempera aquele ecossistema. As obras são emissoras e receptoras daquela energia luminosa (“Preservar é contaminar”), revelando-se e empatizando na sua significação, expandindo-se física e conceptualmente pelo quarto.
Invocam-se forças (“três papos secos”), mitos (“Medusa”), cenas que brotam (“Brota-se sempre de algum sítio”), uma corrente fluida (“Jusqu’ici tout va bien”), vestígios que fazem por permanecer (“hair residues”), que apanham os refegos da pele e se aninham nesses espaços.

Propostas onde o corpo é encarnação, onde é dispositivo para reflexão e análise, onde é testemunha de alterações de realidades, onde é mediador para o pensamento sobre a femonologia do espaço e do tempo.

Pensamos em “corpo-casca”, e o corpo desnuda-se no interior daquele quarto. Despimos a pele que nos separa a esfera privada da pública, expondo tudo o que é interior, visceral, intimo.
Uma pele que se sente sensível, reactiva, que manifesta e expõe os aspectos da nossa afectação actual e específica, uma pele que se revela corpo em movimento mas subjugado a forças maiores e externas, que o constrange e imobiliza, que deixa apenas as extremidades soltas, de fora, possibilitando somente um espernear, um bater de asas que não deixa levantar voo porque está vinculado ao que é terreno, mortal.

Começou por ser um quarto pequeno, onde mal cabíamos os três e onde qualquer decisão ou inserção ganhava uma força e presença gigante, quase abafando tudo o resto.
O mais insólito foi a capacidade de expansão espacial quando o começámos a carregar de conteúdos e significados, tornou-se factualmente crescente, abriu as paredes, tornou-se circular, esférico. Sem janela nem porta, parecia que estávamos num jazigo, numa cela, numa prisão, numa bolha. Acima de tudo, as características que foi adquirindo e as obras que o habitaram, juntos ganharam a capacidade de produzir uma sensação que pode ser entendida como segurança. Que bom que é estar ali fechado e deixar-se engolir. Este quarto tão completamente fechado para o mundo, tão reservado, tão íntimo, que quando nele se penetra nos dá a impressão que tudo o resto deixa de ter importância. Estamos num espaço protegido, isolado, próprio e íntimo, como um útero quente, macio e fechado, separado de tudo, onde nos podemos proteger e esconder, mas sobretudo onde nos podemos desenvolver.

Mariana Dias Coutinho, 2019


"Quarto Crescente"

PARTE I – Pressupostos

a) “Quarto Crescente”, exposição colectiva de Daniel Alfacinha, Mariana Dias Coutinho e António Guimarães Ferreira partiu de um convite para integrar a programação do FEA – Festival dos Espaços dos Artistas.

b) FEA define-se com um artist-run festival dedicado aos espaços dos artistas tendo como finalidade criar uma rede capaz de devolver ao público e à crítica um mapeamento das energias ativas diariamente no território e propõe estimular um novo género de diálogo entre os artistas e a cidade. (https://www.fealisboa.com/fea-lisboa)

c) Conforme Contrato de Utilização celebrado entre SP121 e António Guimarães Ferreira: O Espaço S.06 é entregue à Segunda Outorgante [AGF] no dia 1 de Janeiro de 2019 e integra um conjunto de espaços, identificados na planta em anexo, destinados ao exercício de actividades da indústria criativa entre outras.

d) O Contrato de Utilização esclarece ainda: A Primeira Outorgante [SP121] é legítima arrendatária do prédio urbano sito na Rua de S. Paulo, nº. 121-1º andar, em Lisboa, adiante designado por SP121 e está autorizada a ceder a respectiva utilização a Terceiros.

e) Maio de 2019: O Contrato de Arrendamento, referido na alínea anterior, entre proprietário do imóvel em questão e SP121, não é renovado. A data de saída estipulada por acordo é 30 de Junho de 2019.
f) “Quarto Crescente” esteve patente entre 14 e 28 de Maio de 2019.


Parte II – Espaço e tempo em suspensão

A não renovação do contrato de arrendamento teve como efeito necessário a alteração das qualidades do espaço e a sua relação com quem o utiliza. A forma de planeamento do tipo de uso a dar ao quarto, dos trabalhos ou projectos a realizar ou da sustentabilidade económica que está subjacente ao aluguer passou a depender de um tempo suspenso, caracterizado por uma degradação sucessiva das possibilidades deste espaço.

Quanto mais perto do final, menos vida, pujança, planeamento ou desejo de concretizar algo.

Foi neste contexto que a acção colectiva exercida pelos artistas sobre o espaço ainda na sua disponibilidade – a pintura dos vidros das janelas, a uniformização do branco nas paredes e tecto, o sistema de fecho automático da porta – deu forma a um isolamento: Como uma bolha que se forma na pele após uma fricção descontrolada, enchendo-se de líquido para que a regeneração possa existir no seu interior, o quarto, ao albergar um vazio, desdobrou-se em possibilidades.


Parte III – Ocupação

O ar abafado e quente, a reverberação do som e a temperatura da luz constituem um ambiente coeso e orgânico que se expande à totalidade do espaço. O tempo é o agora, os objectos estão presentes e estabelecem um ecossistema próprio.

 “Jusqu'ici tout va bien”, projecção de luz e som, contamina duplamente o ambiente. Ao mesmo tempo que emite um monocromatismo que se expande pelo quarto revela, através do som, um ciclo, interrompido pelo silêncio que precede o recomeço, a cada 13 minutos. O aparecimento e apagamento da frase-título sobre a imagem de fundo sublinham a presença do ritmo emergente de um mantra pós apocalíptico.

Pelo contrário, “Medusa” não impõe movimento mas agarra pela disponibilidade da inacção. Presença que cresce até ao alcance do visitante, para depois limitar-se a permanecer, pronta.

“corpo-casca” revela-se na fragilidade de uma sujeição. Pregada à parede deixa visíveis as marcas irreversíveis da acção da gravidade sobre o seu corpo.

“Indoor eye” ameaça-nos com a sua presença não autorizada no espaço íntimo e “VIII da série Don’t you fuckin dare show anyone” coloca-nos perante a consumação dessa ameaça.

“A.W.F.”, “Brota-se sempre de algum sítio” e “Sem título #3 (série Hair Residues)” exibem processos e transformações onde cicatrizes, aglomerações ou contrastes de materialidades são sub-produtos inesperados de acções, reciclagens de significados ou intenções.

“Preservar é contaminar”, monólito tosco, espécie de aquário congelado de forma apressada, não deixa, apesar disso, de ostentar os artefactos que conserva e o constituem, incrustados pelo tempo que constantemente acelera.

Os “três papos secos”, três irmãos num palco, nus, exibem-se e são, afinal, modelo à escala deste quarto - lugar de intimidade, isolado mas visitável, tímido e generoso - onde cresceram.


António Guimarães Ferreira, 2019
   
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